“Em 50 anos, não souberam construir uma cidade democrática e desenvolvida”, aponta Eduardo Guerra

Na segunda entrevista com os pré-candidatos da chamada ‘terceira via’ na disputa pela Prefeitura de Caruaru nas eleições de 2016, o Portal Mídia Urbana entrevistou Eduardo Guerra (PSOL), que falou sobre os 50 anos de troca de poder entre famílias e a necessidade de prestar mais atenção e cuidar melhor da população da maior cidade do interior de Pernambuco. Veja:

Portal Mídia Urbana: Caruaru é um polo regional em diversos setores como educação, emprego e saúde. Na sua visão quais os principais setores que ainda precisam avançar e porque o município ainda não é referência em diversos segmentos?

Eduardo Guerra: Durante meio século de domínio político, os três grupos conservadores sempre representaram interesses poderosos de umas poucas elites econômicas, que controlam terras, empregos, transportes, licitações, grandes empresas e negócios, que produzem e concentram a riqueza do município em mãos deles mesmos, de seus familiares e amigos. As três famílias que vêm governando Caruaru nos últimos 50 anos, não souberam uma cidade democrática e desenvolvida.

O que eles conseguiram construir nestes 50 anos foi a Caruaru dos esgotos a céu aberto; das ruas lamacentas; dos loteamentos e construções irregulares; da precária iluminação pública; dos mosquitos portadores de vírus, das infecções parasitárias, do Rio Ipojuca e riachos poluídos; da violência em cada esquina; das escolas deterioradas; dos profissionais da educação, saúde e trânsito insatisfeitos; das licitações irregulares; da falta de mobilidade; do transporte público caro e perigoso; da depredação de áreas verdes; das atividades clandestinas; da cultura e do turismo popular desamparados; do desrespeito ao funcionalismo público (com exceção dos cobradores de impostos); dos equipamentos públicos sucateados; das obras de fachada e da especulação imobiliária.

Para esconder ou maquiar as distorções causadas ao longo de quase cinco décadas, os três grupos conservadores se alternam entre esquerda e direita, de acordo com a cor da camisa do governador de plantão e do presidente de turno, usando o dinheiro público estadual e federal para realizar obras relativamente importantes, que beneficiam e valorizam os bairros “nobres”, mas que nunca são suficientes para atender aos bairros periféricos, cujo crescimento é sempre bem maior que a capacidade do poder público para atender às demandas da sua população.

Num momento de crise e questionamento sobre a política no Brasil, ser uma terceira via nas eleições municipais deste ano pode ser visto como um processo de renovação com o discurso daquilo que os eleitores chamam de “novo”?

Certamente vivemos um momento de crise, mas ela é mundial e não é apenas brasileira e se deve tanto à insensibilidade de um sistema econômico violento e excludente que se diz eficiente na produção de riqueza, mas que é extremamente deficiente na distribuição da riqueza que produz, como à incapacidade da elite político-econômica brasileira em traçar caminhos próprios

Na verdade o sistema produz riqueza com o saque dos recurso e da dignidade dos povos, que são a imensa maioria, em prol da acumulação de bens materiais de uma pequena minoria de privilegiados que são: os donos do mundo, seus subalternos donos dos países periféricos ou emergentes e seus vassalos governantes de Estados e Municípios.

Neste contexto não me vejo e nem vejo meu partido o PSOL como uma terceira via. Enxergo o partido como “a verdadeira via” e a mim como um fiel e bom cumpridor de tarefas partidárias. Se o que o povo chama de novo é a construção de uma sociedade mais justa e democrática, baseada na liberdade pacífica e forte, a resposta é sim, esse é o nosso discurso.

Você acredita que a política caruaruense está preparada para sair do eixo de tradição político-familiar estabelecida pelos Lyra, Lacerda e Queiroz?

O povo responderá esta pergunta através do voto, esta é a forma de demonstrar se quer de fato se libertar do jugo conservador desses clãs municipais. Graças à mídia alternativa o povo sabe que os jovens líderes que pertencem aos clãs dos velhos conservadores, representam apenas uma renovação física e não a inovação necessária para fazer de Caruaru uma cidade democrática e desenvolvida, em outras palavras, para transformar o inchaço do crescimento em desenvolvimento sustentável.

Eu acredito na vontade do povo.

Desde as eleições municipais de 2007 a disputa pela gestão municipal tem se concentrado nos interesses dos grupos políticos dos Queiroz e Lacerda, este ano cogita-se que a deputa estadual Raquel Lyra (PSB) também esteja na disputa pelo controle do executivo municipal. Você acredita que a política sempre seguindo esta lógica é prejudicial para a população?

Não apenas acredito, sei que a alternância que nada muda inibe o florescimento das potencialidades do cidadão caruaruense que é empreendedor por natureza. Foi o empreendedorismo privado que trouxe as feiras, a cultura popular, o ensino superior, o rádio, o trem, as universidades, os hospitais, as construções, etc. Os governos municipais sempre estiveram um passo atrás das grandes iniciativas do povo dinâmico e criativo da nossa cidade.

Nas últimas eleições presidenciais os candidatos chamados de terceira via conseguiram atrair para si a atenção dos eleitores com seus projetos de governo e consequentemente votos nas urnas. Você é tido como uma das principais alternativas aos tradicionais “caciques” da política caruaruense. Afinal, o que é ser uma via alternativa na política?

Uma via alternativa em Caruaru é aquela que está fora das vias tradicionais, que com elas não mantém qualquer relação de dependência e que, no meu caso, tem uma visão de mundo, de povo e de cidade diferente da visão de qualquer um dos três clãs que a governam há aproximadamente meio século.

Não sei se represento a terceira, quarta ou outra via qualquer, sei sim que a verdadeira via alternativa deve se opor frontalmente à decadente política tradicional, apresentar um amplo programa que ademais de fortalecer a economia, promova o progresso social e o espírito empreendedor pioneiro do nosso povo e consequentemente a emancipação e o desenvolvimento das forças produtivas, o êxito da prosperidade comum para a efetiva melhoria da qualidade de vida de todos os seus habitantes.

Mikhael Marcolino

Jornalista pela Unifavip/DeVry. Sempre em busca da melhor informação com credibilidade e responsabilidade, é um apaixonado pelas belezas naturais, música, gastronomia e cultura de Caruaru, além de um amante da cultura pop.

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