“O povo associa iniciativa popular a oportunismo e politicagem” afirma Tony Moratto

Nós entrevistamos o Presidente da Associação dos Moradores dos bairros Caruá, Baraúnas e Mandacarú, Tony Moratto, que através da iniciativa popular, tem conquistado melhorias para as comunidades como CEP, calçamento e até área de lazer. Por muitas vezes, Tony foi o cabeça na busca dessas melhorias e conversamos com ele sobre a iniciativa popular, os seus benefícios, malefícios e como ela funciona, na prática.

Leonardo Santos: Você é o Presidente da Associação de Moradores dos bairros Caruá, Baraúnas e Mandacarú, que de alguns anos pra cá tem ganhado notoriedade na imprensa e na cidade, devido a iniciativa popular, onde por diversas vezes vocês – sendo Tony Moratto o cabeça – conquistaram melhorias para o bairro. O último exemplo foi a área verde que levou moradores a arregaçar as mangas afim de um local de lazer. Você não acredita que o poder público possa fazer alguma coisa para a conquista desses espaços e melhorias?

Tony Moratto: De antemão, Obrigado pelas palavras, caro Leonardo.

Chegamos ao bairro há quase 4 anos e desde então não percebia preocupação do poder publico em resolver as pendências, que apesar de o bairro ser novo, já existiam. Linhas de ônibus descontroladas, varias linhas passando irregularmente, calçamento estourando, áreas verdes abandonadas e servindo de deposito de lixo, coleta de lixo apenas uma vez por semana, entrada sem iluminação e ruas sem CEP. 

Buscava formas de resolver individualmente estes problemas de forma anônima, pois me incomodava muito tantos problemas num bairro legalizado. Tentativas porém sem sucesso. 

Foi então que em 7 de Setembro de 2014 reunimos alguns moradores para dar mais credibilidade a nossas iniciativas  e realizamos a assembleia de criação da Associação dos Moradores dos Residenciais Caruá, Baraúnas e Mandacaru – AMRCBM… Só que ainda assim encontrávamos resistência na resolução de nossos problemas. 

As coisas só “começaram a andar” quando começamos a contar com o apoio da imprensa, (como o Portal Midia Urbana por exemplo) noticiando o descaso dos órgãos com nossos problemas e reivindicando melhorias.

A partir daí, começamos a ter visibilidade, digo começamos, pois apesar de minha imagem estar sempre associada nossos pleitos, existem várias pessoas em funções distintas, vice presidente, secretários, fiscais, tesoureiros, e moradores não ligados diretamente a associação que participam das conquistas.

Como citei, você foi o cabeça da maioria das iniciativas populares nestes bairros. Na prática, isso funciona? As pessoas se sentem motivadas a correr atrás desses objetivos em comum?

Apesar de beneficiar a todos cada conquista, nem sempre conseguimos que muitos abracem as causas. Hoje as pessoas acomodaram-se muito a deixar a cargo dos governos o implemento das melhorias em seus lugares. 

Gosto de um proverbio chinês que diz “Se cada um limpar a frente de sua casa, em breve teremos uma rua limpa.”

Lideres comunitários precisam ter sensibilidade e entender que nem sempre todos irão concordar com as ações nas comunidades, nem contribuir, mas precisam aliar-se àqueles que assim se dispuserem a ajudar e encontrarão forças  e estímulos para iniciativas particulares de cunho social.

Sabemos que as redes sociais são um lugar considerado ideal para reunir as pessoas. E ‘online’ a maioria delas se demonstra com vontade de participar. Mas e na prática, isso ocorre ou o boca a boca é mais eficiente nesse sentido?

A internet oferece vários benefícios, o alcance está entre eles. Mas o boca a boca é uma ferramenta importante também. Temos que adotar uma estratégia híbrida, contando com todos tipos de divulgação, afinal nem todos tem o hábito de acompanhar grupos ou apps de mensagem.

Nos últimos tempos, você ganhou notoriedade nos meios de comunicação por conta dessas passagens como o líder das iniciativas populares. E com “grandes poderes, vem grandes responsabilidades”… você se sente mais responsável pelas melhorias que o bairro tem ganhado? Políticos já tentaram te influenciar nesse sentido de se tornar uma liderança para eles dentro dos bairros onde você é conhecido?

Não me sinto responsável pelas melhorias, mas satisfeito com os resultados, sabendo que ali tem parte de um trabalho que faço meramente porque gosto e conjuntamente com outras pessoas. 

Desde que morava no bairro Severino Afonso, já atuava no meio social, porém nunca com envolvimento político. 

A ponte que hoje existe ligando o bairro com o Jardim Panorama foi conseguida assim, através da iniciativa popular. Reunimos mais de 1000 assinaturas e conseguimos que a obra fosse executada na Gestão do então prefeito, Tony Gel. 

Em algum futuro próximo, o fato de você ganhar mais notoriedade e “mais poder” na conquista de melhorias para a sua comunidade, te chamam a atenção para a ocupação de um cargo público? Acredita que pessoas assim como você mais engajadas com o povo tem mais chance de prover a solução para as infinitas demandas do povo?

O trabalho social está intrínseco na minha personalidade. Como falei não é de hoje que atuo nesse sentido. 

Mas acredito que não só para assumir cargos políticos, mas para participar das gestões, os líderes comunitários poderiam contribuir significativamente na construção de um governo mais humano nas cidades. 

Os governantes deveriam atentar mais a trabalhos como este. Eles são o termômetro da vontade popular, pois os líderes comunitários quando agem solidariamente, exprime os anseios do seu lugar que podem servir de direcional nas políticas públicas.

Acredita que é possível construir uma sociedade melhor através da iniciativa popular ou o mundo está tão corrompido que serão raros os momentos em que o povo se une em prol de uma causa como essas de bairros?

A política está desacreditada no geral. 

O povo em si não acredita mais nas iniciativas sociais, logo associam a oportunismo, politicagem, interesses financeiros, etc. 

Porém se a gestão das cidades fosse feita nas comunidades e não nos gabinetes, não teríamos tanta verba mal aplicada e sem resultados sociais significativos.

Muitas comunidades tem potencial pra realizarem mutirões, onde o poder publico entre tão somente com o projeto e material, porém nas cidades não se observam iniciativas com este objetivo.

Forte abraço.

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Leonardo Santos

Fundei o Portal Mídia Urbana. Sou formado em Jornalismo pela UNIFAVIP/DeVry e a paixão em escrever para a web começou em 2008 (desculpa aí). Viciado em música - muita música - também sou aficionado em tecnologia. Além do Portal, trabalho como assessor de imprensa e social media e possuo um canal no YouTube.

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