“Se o estudante não sabe para onde ir, não adianta” diz psicóloga e coach de carreira

Nós conversamos com a psicóloga, professora universitária e coach de carreira para universitários, Joyce Beltrão. Ela falou sobre como o jovem que acaba de sair da faculdade pode se preparar para a vida profissional, mesmo em um momento de crise. Joyce ainda deu dicas valiosas sobre o mercado para quem acabou de pegar o diploma.

A Psicóloga Joyce Beltrão. (Foto: Paulo Sérgio Paulino/PMU)
A Psicóloga Joyce Beltrão. (Foto: Paulo Sérgio Paulino/PMU)

Portal Mídia Urbana: O Brasil está vivendo uma das piores crises, e nem mesmo os profissionais com ensino superior escaparam do mau momento e estão perdendo postos de trabalho. Em momento como este, deve-se ficar de braços cruzados e esperar a crise passar ou se antecipar ao próximo bom momento?

Joyce Beltrão: O discurso de crise tem levado muitas pessoas, sobretudo os profissionais recém-formados, a caírem em uma situação de conformismo e desesperança. E eu vejo isso como um grande desestímulo aos estudantes universitários, sobretudo aqueles que estão em seu último ano de formação, pois ficam sem saber como agir diante dessa situação.

Eu vejo muitos estudantes preocupados porque na cidade onde eles moram não tem emprego e a única opção é fazer concurso para a Prefeitura. Eles chegam até a cogitar se mudarem do seu município de origem para ir em busca de emprego em outra cidade. Eles sequer conseguem vislumbrar outras possibilidades de atuação na sua área.

Outro ponto é o de que o jovem até se preocupa com o futuro, mas não tem o hábito de fazer um planejamento consciente e objetivo da sua carreira profissional. E aí os riscos são muito grandes. Porque quem não tem um projeto profissional claro, bem traçado, termina sendo conduzido pelas “tendências”. Então, se dizem que é para ele estudar mandarim, ele vai estudar mandarim. Se dizem para ele fazer gestão de pessoas, ele vai fazer gestão de pessoas. E fazem isso porque lhes disseram que isso seria um diferencial competitivo no trabalho. E eu lhes digo, diferencial competitivo é oferecer valor ao mercado. Não basta oferecer algo diferente, inusitado, aquilo precisa ter valor para o mercado. Para o mercado onde você vai atuar.

É impossível não abordar a atual situação política e econômica do país, principalmente quando milhares de jovens recém-graduados estão saindo das faculdades e cursos técnicos. Como esses novos profissionais devem reagir diante dessas dificuldades?

Eu poderia dizer que eles precisam fazer uma pós-graduação nessa ou naquela área, estudar tal idioma, enviar tantos currículos por dia. Mas nada disso adianta se a pessoa não tem horizonte. Se ela não consegue visualizar sua carreira no futuro.

A primeira coisa que eles precisam fazer é o seu planejamento de carreira. Existem inúmeras modalidades de trabalho na contemporaneidade. O profissional recém-formado pode trabalhar como autônomo na sua área, terceirizar seu serviço para múltiplas empresas, abrir seu próprio negócio, oferecer seu serviço pela web. São caminhos que eles precisam enxergar e aprender a construir parcerias, não apenas com profissionais de sua área, mas, sobretudo, com profissionais de outras áreas do conhecimento. Expandir. Ser criativo. Pensar fora da caixa.

Joyce ministrou workshop sobre carreira para universitários no mês passado. (Foto: Paulo Sérgio Paulino/PMU)
Joyce ministrou workshop sobre carreira para universitários no mês passado. (Foto: Paulo Sérgio Paulino/PMU)

Após formados muitos profissionais se sentem apáticos e cabisbaixos na profissão que escolheram, até mesmo aqueles que eram bastante entusiasmados e que até disseram ser a profissão de suas vidas. Por que isso acontece e o que pode ser feito para reverter o quadro?

Existem múltiplos fatores. Existe o fato de eles ingressarem muito novos na universidade, sem maturidade para fazer uma escolha profissional. Existe o fato de muitos não planejarem seu futuro, deixando-se guiar pelos acasos e pela sorte. Mas eu arriscaria em dizer que talvez o que mais tenha gerado essa desistência em relação à profissão é esse imediatismo dessa nova geração.

Essa nova geração é muito mais impaciente em relação aos resultados, tem mais urgência de ver as coisas acontecerem logo. E quando esse logo é mais demorado do que o que eles imaginavam, o sonho de ser feliz na sua profissão é abandonado.

Acho que é preciso rever esses conceitos e, principalmente, encontrar um trabalho que dê sentido às suas vidas. Que dê sentido ao seu esforço, às suas renúncias, à sua luta diária. Porque o sucesso profissional não tem nada a ver com dinheiro ou fama, tem a ver com fazer um trabalho que faça diferença na sua vida, e também na vida das pessoas, das organizações e da sociedade como um todo.

A escolha de uma profissão é um passo importante na vida de qualquer pessoa, porém, é uma mudança ainda mais decisiva quando se trata de um profissional que deseja mudar de área. O que deve ser levado em conta antes de iniciar um novo curso?

Eu sempre falo que a ordem da vida é a mudança. Se alguém seguiu um caminho e, por alguma razão, desgostou daquela escolha e aí resolve tomar outra rota, não há nada de demérito nisso. É muito difícil você gostar 100% do seu curso.

Encare a situação de frente e procure fazer uma análise crítica e pormenorizada dela. Então, na hora de mudar de área o universitário precisa tomar algumas atitudes. 1) se pergunte se essa insatisfação com o curso é generalizada ou se refere a um período específico da sua formação. 2) procure perceber como está sua vida naquele momento. Se isso não é um reflexo de alguma fase difícil que você esteja passando na vida pessoal, financeira, emocional. 3) faça uma pesquisa consistente sobre o (s) curso(s) que você pensa fazer. Colha informações relevantes com pessoas que estão cursando essa área, com os professores e com os profissionais que atuam no setor. 4) busque ajuda profissional para te dar um suporte nesse processo de autoconhecimento.

Esses quatro passos ajudarão o universitário a ter uma compreensão mais ampla da situação e de si mesmo, evitando o desconforto de ter que fazer caminhadas inúteis e desnecessárias.

Terminar um curso superior é um desafio muito maior que o início da faculdade. Qual a importância de pensar no pós-curso?

O estudante, quando está em formação, se sente como se estivesse dentro de uma bolha de proteção. Essa bolha é a sua condição de estudante, que lhe oferece muitas concessões. A família, a sociedade, os amigos justificam suas faltas materiais, intelectuais e sociais por ele “ainda ser um estudante”. Tanto é que muitos desejam ficar eternamente nessa condição pra não ter que enfrentar a maturidade da vida profissional. Do ter que dar conta de se virar sozinho.

A importância de pensar no pós-curso é exatamente antever a realidade que eles, inevitavelmente, irão enfrentar. O meu entendimento é que tudo ficaria muito mais fácil e possível se houvesse um planejamento que sucedesse às ações. Ou seja, que antes de se formar, esses estudantes pudessem parar um pouco, refletir sobre seu futuro e desenhar o seu projeto profissional. Esse projeto é o que vai dar sentido e direção a cada passo seu. Ao planejar sua carreira, o aluno define qual a melhor rota a seguir e constrói estratégias para alcançar seus objetivos desde o período da formação. Com isso, ele sentirá de forma mais tranquila o impacto dessa passagem.

Joyce Beltrão possui um site dedicado a ajudar jovens que estão se preparando para o mercado de trabalho e querem ganhar o mundo estando mais preparados. 

Mikhael Marcolino

Jornalista pela Unifavip/DeVry. Sempre em busca da melhor informação com credibilidade e responsabilidade, é um apaixonado pelas belezas naturais, música, gastronomia e cultura de Caruaru, além de um amante da cultura pop.

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