Moro divulgou depoimento de Palocci mesmo com dúvidas sobre as provas



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As mensagens trocadas por procuradores da Operação Lava Jato sugere que a decisão do juiz Sérgio Moro foi influenciada por considerações políticas. Os diálogos foram obtidos pelo The Intercept Brasil e analisados pela Folha de Pernambuco junto com o site.

De acordo com as conversas, é possível ver que Moro tinha dúvidas sobre as provas apresentadas por Palocci, porém achava sua colaboração importante por representar uma quebra dos vínculos que uniam os petistas. “Russo comentou que embora seja difícil provar ele é o único que quebrou a omerta petista”, disse o procurador Paulo Roberto Galvão a seus colegas num grupo de mensagens de aplicativo em 25 de setembro. “Russo” é referindo a Moro.

No mesmo dia em que houve essas mensagens, Moro recebeu as provas entregues pelo delator e se preparou para divulgar um dos depoimentos que o ex-ministro prestou sobre a corrupção nos governos do PT. Palocci fechou acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal em março do ano passado.

Ainda analisando as mensagens, foi possível ver que os procuradores encerraram as negociações ao concluir que a delação de Palocci acrescentava pouco ao que os investigadores já sabiam e não incluía provas capazes de sustentar os depoimentos.

As conversas revelam que os procuradores cogitaram pedir a anulação do acordo de Palocci com a PF e continuaram manifestando dúvidas sobre o valor de sua colaboração. Moro divulgou a delação de Palocci no dia 1º de outubro, uma semana após o comentário reproduzido por Paulo Roberto Galvão e uma semana antes do primeiro turno das eleições presidenciais.

Em seu despacho, Moro justificou a medida argumentando que, como seria responsável por avaliar os benefícios oferecidos a Palocci mais tarde, na sentença do processo, era necessário anexar aos autos os termos da colaboração de Palocci. Ele afirmou também que isso era necessário para garantir ampla defesa aos demais acusados na ação, embora tenha feito a ressalva de que só iria considerar em sua sentença o depoimento prestado por Palocci à Justiça em 2017, quando o juiz, o Ministério Público e os advogados dos outros réus puderam questioná-lo.

O acordo de Palocci com a PF foi homologado em junho de 2018 pelo juiz João Pedro Gebran Neto, relator da Lava Jato no Tribunal Regional Federal da 4ª Região. O depoimento divulgado por Moro com os termos da delação de Palocci foi tomado pela polícia em abril de 2018, onde o ex-ministro disse que Lula autorizou o loteamento da Petrobras pelos partidos que apoiavam seu governo e sabia que eles recolhiam propina das empreiteiras.

Palocci também disse à PF que as campanhas da ex-presidente Dilma Rousseff em 2010 e 2014 receberam dinheiro de caixa dois e custaram muito mais caro do que os registros oficiais indicam. Mesmo sem provas, o depoimento divulgado por Moro antes das eleições ganhou grandes repercussões.

Duas semanas depois, ao se defender contra uma reclamação apresentada contra ele no Conselho Nacional de Justiça, Moro apresentou novos argumentos e negou que sua intenção tivesse sido influenciar as eleições presidenciais.

Um mês depois Moro abandonou a magistratura para ser ministro da Justiça e Segurança Pública no governo Bolsonaro. Duas semanas depois, o TRF-4 soltou Palocci, e determinou seu recolhimento em prisão domiciliar.

 

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